Destaquei-o na minha página porque me senti lisonjeada de fazer parte de uma manhã na vida de uma pessoa distante, que nem conheço pessoalmente, mas a quem cheguei através de palavras cantadas.
A poesia tem esse poder, a música também, o cinema e o teatro, as artes plásticas... A Arte põe o mundo em contacto por afinidades e gera entendimento entre as pessoas.
Eu escrevo muito, e algumas das coisas saem em formato de canção, outras não - nunca me preocupo se fiz um poema novo, nem em assentar o nome do poeta que li, mais do que a ouvir.
A poesia é dizer as coisas todas de uma vez. Toda a gente a faz às vezes.
in http://outroscriticos.blogspot.com/2010/04/outros-criticos-entrevistam-marcia.html
bLog IVRO
Alguns estudos indicam uma relação positiva entre a leitura e a saúde duma população, nomeadamente na adesão a estilos de vida saudáveis e na gestão da doença. Através da apresentação de excertos de vários livros, bLog Ivro assume a responsabilidade de dar a conhecer escritas e autores, incentivando a sua leitura integral.
20110706
20110130
Do Sol, Jacinto Lucas Pires
O homem vermelho está sempre a cair. (..) De lado, inteiro, como um poste ou um lápis, pás. Cai sem mexer os braços nem mudar de cara, (...) distrai-se e, pás, cai.
20101201
A sombra do que fomos, Luís Sepúlveda
Voltou às palavras cruzadas. Seis letras, cidade do País Basco.
- Bilbau, sai sempre. Porque não pões palavras inteligentes que tenham a ver connosco? Por exemplo, dez letras: campo de concentração de onde, se te levam de noite, nunca mais apareces: Puchuncaví. Oito letras: o que sentes quando os teus velhos vão visitar-te à prisão e te dizem que o teu irmão Juan morreu crivado de balas numa lixeira: tristeza. Seis letras: o que sentes se ao abrir um buraco na terra, encontras três esqueletos com as mãos amarradas atrás das costas e um deles tem calçado os sapatos do teu irmão Alberto: raiva.
Inamovível país da memória. Incorruptível como um seio de Santa Teresa ou um filme de Roger Vadim.
E tudo o que esteve grávido de futuro ficou, de repente, envenenado de passado.
Mensagem de gerundio@hotmail.com para:
blacpanther@hotmail.com
Alegra-me saber de ti, eu regressei há pouco menos de meio ano (...) De que se trata? Parece-me muito misterioso, tudo isto. E, por favor, não me escrevas com gramática de jovenzinho analfabesta. Quero é com q e não com k, e também escreve-se com todas as letras.
(...) os rapazes de Chaihuín queriam aprender a lutar para serem livres, tal como o fará toda essa gente que se arrisca para que Allende ganhe. Querem ser livres. Eu sou diferente, chui. eu luto para não me esquecer de que sou um homem livre.
(...) o camarada tem de digerir as suas ideias e para isso é necessário que as meta no corpo. Tu escolhes, ou comes as folhas uma por uma até à última ou metemos-te-las pelo rabo. (...)
O sabor a tinta de mimeógrafo durou meses. (...)
- Comi todos os panfletos. Durante muito tempo a minha namorada disse que beijar-me era como beijar Gutenberg.
Vou dar-te um conselho: aproveita o tempo e estuda electrónica porque a guerra há-de ser com arames e coisas minúsculas.
- Bilbau, sai sempre. Porque não pões palavras inteligentes que tenham a ver connosco? Por exemplo, dez letras: campo de concentração de onde, se te levam de noite, nunca mais apareces: Puchuncaví. Oito letras: o que sentes quando os teus velhos vão visitar-te à prisão e te dizem que o teu irmão Juan morreu crivado de balas numa lixeira: tristeza. Seis letras: o que sentes se ao abrir um buraco na terra, encontras três esqueletos com as mãos amarradas atrás das costas e um deles tem calçado os sapatos do teu irmão Alberto: raiva.
Inamovível país da memória. Incorruptível como um seio de Santa Teresa ou um filme de Roger Vadim.
E tudo o que esteve grávido de futuro ficou, de repente, envenenado de passado.
Mensagem de gerundio@hotmail.com para:
blacpanther@hotmail.com
Alegra-me saber de ti, eu regressei há pouco menos de meio ano (...) De que se trata? Parece-me muito misterioso, tudo isto. E, por favor, não me escrevas com gramática de jovenzinho analfabesta. Quero é com q e não com k, e também escreve-se com todas as letras.
(...) os rapazes de Chaihuín queriam aprender a lutar para serem livres, tal como o fará toda essa gente que se arrisca para que Allende ganhe. Querem ser livres. Eu sou diferente, chui. eu luto para não me esquecer de que sou um homem livre.
(...) o camarada tem de digerir as suas ideias e para isso é necessário que as meta no corpo. Tu escolhes, ou comes as folhas uma por uma até à última ou metemos-te-las pelo rabo. (...)
O sabor a tinta de mimeógrafo durou meses. (...)
- Comi todos os panfletos. Durante muito tempo a minha namorada disse que beijar-me era como beijar Gutenberg.
Vou dar-te um conselho: aproveita o tempo e estuda electrónica porque a guerra há-de ser com arames e coisas minúsculas.
20101108
A Varanda do Frangipani, Mia Couto
Sou desses mortos a quem não cortaram o cordão desumbilical.
Padeci tais fomes que só não morri porque a morte não me encontrou, tão magro que estava.
São estes pretos que todos os dias me semeiam. (...) Desculpe-me este meu português, já nem sei que língua falo, tenho a gramática toda suja, da cor desta terra.
A velhice o que é senão a morte estagiando em nosso corpo?
Porque a memória me chega rasgada, em pedaços desencontrados. Eu quero a paz de pertencer a um só lugar, eu quero a tranquilidade de não dividir memórias. Ser todo de uma vida. E assim ter a certeza que morro de uma só única vez. Custa-me ir cumprindo tantas pequenas mortes, essas que apenas nós notamos, na íntima obscuridade de nós. Me deixe, inspector, que eu acabei de morrer um bocadinho.
... a árvore, dizia ele, tem alma eterna: a própria terra. A gente toca o tronco e sente o sangue da terra circular em nossas íntimas veias.
- (...) já viu a garça a adormecer?
(...)
- Ela tapa a cara com a asa. Como o homem quando chora. A garça tem vergonha de dormir às vistas do mundo.
Ela dormia fora porque aqueles quartos lhe davam uma tristeza de caixão sem cova.
Os únicos que conhecem a verdadeira cor do mar são as aves que olham de um outro azul.
Nessa altura eu não sabia que, bem vistas as contas, somos todos mulatos. Só que, em alguns, isso é mais visível por fora
Padeci tais fomes que só não morri porque a morte não me encontrou, tão magro que estava.
São estes pretos que todos os dias me semeiam. (...) Desculpe-me este meu português, já nem sei que língua falo, tenho a gramática toda suja, da cor desta terra.
A velhice o que é senão a morte estagiando em nosso corpo?
Porque a memória me chega rasgada, em pedaços desencontrados. Eu quero a paz de pertencer a um só lugar, eu quero a tranquilidade de não dividir memórias. Ser todo de uma vida. E assim ter a certeza que morro de uma só única vez. Custa-me ir cumprindo tantas pequenas mortes, essas que apenas nós notamos, na íntima obscuridade de nós. Me deixe, inspector, que eu acabei de morrer um bocadinho.
... a árvore, dizia ele, tem alma eterna: a própria terra. A gente toca o tronco e sente o sangue da terra circular em nossas íntimas veias.
- (...) já viu a garça a adormecer?
(...)
- Ela tapa a cara com a asa. Como o homem quando chora. A garça tem vergonha de dormir às vistas do mundo.
Ela dormia fora porque aqueles quartos lhe davam uma tristeza de caixão sem cova.
Os únicos que conhecem a verdadeira cor do mar são as aves que olham de um outro azul.
Nessa altura eu não sabia que, bem vistas as contas, somos todos mulatos. Só que, em alguns, isso é mais visível por fora
20101008
Monte Sinai, José Luís Sampedro
(...) a morte não é problema; como precisou o antigo filósofo, "quando tu estás Ela não está; quando Ela está, tu não estás".
Lá fora via o mundo, onde as árvores ressuscitam todos os anos e vivem mais do que uma só Primavera.
Sem grades não perceberíamos a liberdade; (...) Como o papagaio que voa por estar atado. Graças ao vento, sim, mas esse mesmo vento não o levantaria sem o cordel que o prende.
Lá fora via o mundo, onde as árvores ressuscitam todos os anos e vivem mais do que uma só Primavera.
Sem grades não perceberíamos a liberdade; (...) Como o papagaio que voa por estar atado. Graças ao vento, sim, mas esse mesmo vento não o levantaria sem o cordel que o prende.
20100110
O Mundo depois de Copérnico, Lia Formigari
As aquisições da sociobiologia, acrescentava, não desencorajam as reformas sociais tal como a descoberta que a miopia é hereditária não desencoraja as pessoas a usar óculos.
Ruth Benedict, em Modelli di cultura, resume «Em toda a sua história o homem defendera a sua unicidade como um ponto de honra. Na época de Copérnico, esta pretensão à supremacia era tão impositiva que se estendia à terra em que vivemos, e o século XV recusou-se, apaixonadamente, a acreditar que o globo terrestre é apenas um planeta do sistema solar.
No tempo de Darwin, como teve de ceder o sistema solar ao inimigo, o homem combateu, com todas as armas em seu poder, pela exclusiva posse de uma alma, atributo de natureza incognoscível concedido por Deus ao homem, de um modo que demonstra que o homem não descendia do reino animal.
A matéria é, pois, infinita e constitui mundos infinitos, alguns dos quais são até, talvez, melhores do que o nosso e habitados por seres racionais melhores do que nós.
Pensamentos, de Blaise Pascal (1623-1662):
«Que o homem contemple, a natureza inteira na sua alta majestade e afaste os olhos dos objectos mesquinhos que a rodeiam. Observe aquela luz deslumbrante, colocada como uma lâmpada eterna para iluminar o Universo; e a terra lhe surja como um ponto em comparação com o amplo circuito que aquele astro descreve; e se espante com o facto de que aquele mesmo vasto circuito não ser mais do que um ponto minúsculo em proporção com o espaço abrangido por todos os outros astros a girar no firmamento. (…) Todo este mundo visível não é mais do que um traço imperceptível no seio da natureza. (…) Podemos alargar as nossas concepções para lá dos espaços imagináveis: não geramos mais do que átomos em comparação com a realidade das coisas. É uma esfera cujo centro se encontra por todo o lado, a circunferência em nenhum lugar […]
«E agora o homem, depois de ter regressado a si, considere aquilo que é em comparação com o que existe; encare-se como perdido neste remoto recanto da natureza; e deste pequeno cárcere em que se encontra encerrado, refiro-me ao universo, aprenda a estimar, no seu justo valor, a terra, os reinos, a cidade e a si próprio. O que é um homem no infinito?»
Voltaire escrevia no seu Dicionário filosófico, «... o céu não existe: há uma quantidade prodigiosa de astros a errar no espaço vazio, e o nosso globo gira nele como os outros». Somos o céu dos habitantes da Lua. Para o bicho da seda o céu é a teia que lhe envolve o casulo.
Holbach celebra com expressões de entusiasmo os grandes eventos cósmicos,... «A natureza, com as suas combinações gera sóis que se vão colocar no centro de outros tantos sistemas; produz planetas que, pela sua própria essência, gravitam e descrevem as suas revoluções, à volta daqueles sóis; a pouco e pouco, o movimento altera uns e outros; aquele dispersará um dia, talvez, as partes com que compôs estas massas maravilhosas que o homem, no curto espaço da sua existência, não faz mais do que entrever, de passagem.»
Graças ao movimento, diz Holbach no seu Sistema da Natureza, verifica-se «uma transmigração, uma transformação, uma circulação contínua das moléculas da matéria. A natureza tem necessidade, em determinado lugar, daquelas que tinha colocado num outro por certo período de tempo; estas moléculas, depois de terem, por meio de combinações particulares, constituído seres dotados de essência, de propriedades, de modos de agir determinados, dissolvem-se ou separam-se, com maior ou menos facilidade, e, combinando-se de um novo modo, formam-se novos seres. O observador atento […] vê a natureza cheia de germes errantes, dos quais alguns se desenvolvem, enquanto outros esperam que o movimento os coloque nas esferas, nas matérias, nas circunstâncias necessárias para os ampliar, acrescentar, tornar mais sensíveis, com o acrescento de substâncias ou matérias análogas ao seu ser primitivo.»
(…)
«Da pedra formada nas vísceras da terra, através da combinação íntima de moléculas análogas e similares, que se aproximaram umas das outras, até ao sol, esse vasto reservatório de partículas inflamadas, que ilumina o firmamamento; do molusco entorpecido até ao homem activo e pensante, vemos uma progressão ininterrupta, uma cadeia perpétua de combinações e movimentos, da qual derivam seres diferentes entre si devido, apenas, à variedade das suas matérias elementares, das combinações e proporções desses mesmos elementos, dos quais, nascem modos de existir e de agir infinitamente diversificados.»
Diderot descreve «... se o primeiro homem tivesse a laringe fechada, se não tivesse encontrado alimentos convenientes, se tivesse tido uma deficiente conformação dos órgãos genitais, se não tivesse encontrado a sua companheira, se se tivesse acasalado com seres de outras espécies, […] que teria sido do género humano?...»
No Sonho de d'Alembert, outro texto de Diderot,... «Todos os seres circulam uns nos outros […], tudo é um perpétuo fluir […] Todo o animal é, mais ou menos, homem, todo o mineral é, mais ou menos, planta, toda a planta é, mais ou menos, animal […] Toda a coisa é, mais ou menos, uma qualquer outra coisa, mais ou menos terra, mais ou menos água, mais ou menos ar, mais ou menos fogo, mais ou menos pertencente a um outro reina da natureza […] Nada mais existe do que um único grande indivíduo: o todo.»
Holbach «Sóis apagam-se e secam, planetas extinguem-se e dispersam-se nas regiões áridas; acendem-se outros sóis, formam-se novos planetas (…) E o homem, porção infinitamente pequena do globo, (…) acredita ser para ele que o Universo é feito, (…) proclama-se o rei do Universo!»
A felicidade exige o esclarecimento dos intelectos, e esclarecimento significa tolerância.
O facto de existirem homens na América não nos deve surpreender mais do que o de existirem moscas.
Na História Filosófica e Política das Colónias e do Comércio dos Europeus nas Duas Índias, Guillaume-Thomas Raynal: Foi a partir daí que os homens dos mais distantes países se aproximaram, graças a novas relações e necessidade. Os produtos dos climas equatoriais consomem-se nos climas próximos dos pólos, a indústria do Norte é levada para o Sul, os estofos do Oriente tornaram-se o luxo dos ocidentais; e, por toda a parte, os homens trocam, uns com os outros, opiniões, leis, usos, doenças, remédios, virtudes e vícios».
«(…) prossegue Rousseau -, segue-se que a mulher é especificamente feita para agradar ao homem». (…) A mulher deve ceder ao desejo e à vontade do homem, mas também deve ser hábil e subtil ao ponto de suscitar no homem aquele desejo e aquela vontade a que ela, depois, deverá ceder e, também, suficientemente astuta para nunca o deixar perceber se cedeu porque o que queria fazer ou porque era demasiado fraca para resistir. Em suma, «aquilo que é mais doce para o homem na sua vitória é o duvidar se é a fraqueza que cede à força ou se é a vontade que se rende...»
Se não se inculcasse uma distinção dos sexos antes ainda de se manifestar a diferença instituída pela natureza, meninas e meninos teriam as mesmas brincadeiras.
Ruth Benedict, em Modelli di cultura, resume «Em toda a sua história o homem defendera a sua unicidade como um ponto de honra. Na época de Copérnico, esta pretensão à supremacia era tão impositiva que se estendia à terra em que vivemos, e o século XV recusou-se, apaixonadamente, a acreditar que o globo terrestre é apenas um planeta do sistema solar.
No tempo de Darwin, como teve de ceder o sistema solar ao inimigo, o homem combateu, com todas as armas em seu poder, pela exclusiva posse de uma alma, atributo de natureza incognoscível concedido por Deus ao homem, de um modo que demonstra que o homem não descendia do reino animal.
A matéria é, pois, infinita e constitui mundos infinitos, alguns dos quais são até, talvez, melhores do que o nosso e habitados por seres racionais melhores do que nós.
Pensamentos, de Blaise Pascal (1623-1662):
«Que o homem contemple, a natureza inteira na sua alta majestade e afaste os olhos dos objectos mesquinhos que a rodeiam. Observe aquela luz deslumbrante, colocada como uma lâmpada eterna para iluminar o Universo; e a terra lhe surja como um ponto em comparação com o amplo circuito que aquele astro descreve; e se espante com o facto de que aquele mesmo vasto circuito não ser mais do que um ponto minúsculo em proporção com o espaço abrangido por todos os outros astros a girar no firmamento. (…) Todo este mundo visível não é mais do que um traço imperceptível no seio da natureza. (…) Podemos alargar as nossas concepções para lá dos espaços imagináveis: não geramos mais do que átomos em comparação com a realidade das coisas. É uma esfera cujo centro se encontra por todo o lado, a circunferência em nenhum lugar […]
«E agora o homem, depois de ter regressado a si, considere aquilo que é em comparação com o que existe; encare-se como perdido neste remoto recanto da natureza; e deste pequeno cárcere em que se encontra encerrado, refiro-me ao universo, aprenda a estimar, no seu justo valor, a terra, os reinos, a cidade e a si próprio. O que é um homem no infinito?»
Voltaire escrevia no seu Dicionário filosófico, «... o céu não existe: há uma quantidade prodigiosa de astros a errar no espaço vazio, e o nosso globo gira nele como os outros». Somos o céu dos habitantes da Lua. Para o bicho da seda o céu é a teia que lhe envolve o casulo.
Holbach celebra com expressões de entusiasmo os grandes eventos cósmicos,... «A natureza, com as suas combinações gera sóis que se vão colocar no centro de outros tantos sistemas; produz planetas que, pela sua própria essência, gravitam e descrevem as suas revoluções, à volta daqueles sóis; a pouco e pouco, o movimento altera uns e outros; aquele dispersará um dia, talvez, as partes com que compôs estas massas maravilhosas que o homem, no curto espaço da sua existência, não faz mais do que entrever, de passagem.»
Graças ao movimento, diz Holbach no seu Sistema da Natureza, verifica-se «uma transmigração, uma transformação, uma circulação contínua das moléculas da matéria. A natureza tem necessidade, em determinado lugar, daquelas que tinha colocado num outro por certo período de tempo; estas moléculas, depois de terem, por meio de combinações particulares, constituído seres dotados de essência, de propriedades, de modos de agir determinados, dissolvem-se ou separam-se, com maior ou menos facilidade, e, combinando-se de um novo modo, formam-se novos seres. O observador atento […] vê a natureza cheia de germes errantes, dos quais alguns se desenvolvem, enquanto outros esperam que o movimento os coloque nas esferas, nas matérias, nas circunstâncias necessárias para os ampliar, acrescentar, tornar mais sensíveis, com o acrescento de substâncias ou matérias análogas ao seu ser primitivo.»
(…)
«Da pedra formada nas vísceras da terra, através da combinação íntima de moléculas análogas e similares, que se aproximaram umas das outras, até ao sol, esse vasto reservatório de partículas inflamadas, que ilumina o firmamamento; do molusco entorpecido até ao homem activo e pensante, vemos uma progressão ininterrupta, uma cadeia perpétua de combinações e movimentos, da qual derivam seres diferentes entre si devido, apenas, à variedade das suas matérias elementares, das combinações e proporções desses mesmos elementos, dos quais, nascem modos de existir e de agir infinitamente diversificados.»
Diderot descreve «... se o primeiro homem tivesse a laringe fechada, se não tivesse encontrado alimentos convenientes, se tivesse tido uma deficiente conformação dos órgãos genitais, se não tivesse encontrado a sua companheira, se se tivesse acasalado com seres de outras espécies, […] que teria sido do género humano?...»
No Sonho de d'Alembert, outro texto de Diderot,... «Todos os seres circulam uns nos outros […], tudo é um perpétuo fluir […] Todo o animal é, mais ou menos, homem, todo o mineral é, mais ou menos, planta, toda a planta é, mais ou menos, animal […] Toda a coisa é, mais ou menos, uma qualquer outra coisa, mais ou menos terra, mais ou menos água, mais ou menos ar, mais ou menos fogo, mais ou menos pertencente a um outro reina da natureza […] Nada mais existe do que um único grande indivíduo: o todo.»
Holbach «Sóis apagam-se e secam, planetas extinguem-se e dispersam-se nas regiões áridas; acendem-se outros sóis, formam-se novos planetas (…) E o homem, porção infinitamente pequena do globo, (…) acredita ser para ele que o Universo é feito, (…) proclama-se o rei do Universo!»
A felicidade exige o esclarecimento dos intelectos, e esclarecimento significa tolerância.
O facto de existirem homens na América não nos deve surpreender mais do que o de existirem moscas.
Na História Filosófica e Política das Colónias e do Comércio dos Europeus nas Duas Índias, Guillaume-Thomas Raynal: Foi a partir daí que os homens dos mais distantes países se aproximaram, graças a novas relações e necessidade. Os produtos dos climas equatoriais consomem-se nos climas próximos dos pólos, a indústria do Norte é levada para o Sul, os estofos do Oriente tornaram-se o luxo dos ocidentais; e, por toda a parte, os homens trocam, uns com os outros, opiniões, leis, usos, doenças, remédios, virtudes e vícios».
«(…) prossegue Rousseau -, segue-se que a mulher é especificamente feita para agradar ao homem». (…) A mulher deve ceder ao desejo e à vontade do homem, mas também deve ser hábil e subtil ao ponto de suscitar no homem aquele desejo e aquela vontade a que ela, depois, deverá ceder e, também, suficientemente astuta para nunca o deixar perceber se cedeu porque o que queria fazer ou porque era demasiado fraca para resistir. Em suma, «aquilo que é mais doce para o homem na sua vitória é o duvidar se é a fraqueza que cede à força ou se é a vontade que se rende...»
Se não se inculcasse uma distinção dos sexos antes ainda de se manifestar a diferença instituída pela natureza, meninas e meninos teriam as mesmas brincadeiras.
20091005
O ratinho, a mosca e o homem, François Jacob
No filme René Clair C’est arrivé demain um jovem jornalista trava conhecimento com um fantasma cujas boas graças consegue conquistar. O fantasma envia-lhe então todos os dias o jornal do dia seguinte.
Daqui resultou para o jovem jornalista um poder jamais visto. Sabe de que será feito o amanhã. Conhece os acontecimentos, os perigos, os projectos, os resultados das corridas de cavalos, as variações da bolsa, enfim, é bem sucedido em todas as iniciativas, incluindo as amorosas. Até ao dia em que o jornal lhe anuncia a própria morte, que terá lugar no dia seguinte. Enlouquecido, o jornalista foge para evitar o destino. Mas, por mais que o tente, não pode escapar-lhe. Dá por si à hora e no lugar previstos para a sua morte. E, se, apesar de tudo, o filme acaba bem, é só porque por vezes há notícias falsas nos jornais!
Daqui resultou para o jovem jornalista um poder jamais visto. Sabe de que será feito o amanhã. Conhece os acontecimentos, os perigos, os projectos, os resultados das corridas de cavalos, as variações da bolsa, enfim, é bem sucedido em todas as iniciativas, incluindo as amorosas. Até ao dia em que o jornal lhe anuncia a própria morte, que terá lugar no dia seguinte. Enlouquecido, o jornalista foge para evitar o destino. Mas, por mais que o tente, não pode escapar-lhe. Dá por si à hora e no lugar previstos para a sua morte. E, se, apesar de tudo, o filme acaba bem, é só porque por vezes há notícias falsas nos jornais!
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